XIV DOMINGO DO TC – A (Mt11,25-30)

D. Paulo DOMICIANO, OSB

O anúncio do Evangelho deste domingo é de uma surpreendente atualidade! Nele o Senhor convida a todos nós para nos aproximarmos dele: “Vinde a mim, todos vós, que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. É uma palavra atual, pois vivemos em uma “sociedade do cansaço”.

Já escrevia o grande poeta português Fernando Pessoa no início do século passado:

“O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.”

Vivemos correndo de um lado para outro, sempre atrás de alguma urgência, constantemente cansados. São inúmeras as solicitações que nos cercam – trabalho, família, filhos, amigos, problemas do dia-a-dia – além de situações realmente difíceis, de sofrimentos e de lutas intensas que surgem em nosso caminho. Contudo, além desses desafios concretos que se apresentam, temos uma capacidade surpreendente para criarmos solicitações desnecessárias, a capacidade de criar problemas, de inventar necessidades. “A subtileza das sensações inúteis, /As paixões violentas por coisa nenhuma”, continua o nosso poeta. Esta busca por coisa nenhuma, progressivamente, esgota nossas forças, gerando um cansaço que não sabemos sequer de onde vem, uma falta de energia vital. Não se trata do cansaço que é resultado de um trabalho intenso ou das lutas impostas pela vida; não é fruto de doação e empenho, mas somente um cansado por falta de energia, falta de sentido, um cansaço da vida. É um cansaço de estarmos cansados, simplesmente.

Sim, muitas vezes a vida se torna um fardo a ser carregado. Pode ser um fardo de coisas muito concreta, como disse: um sofrimento, uma perda, uma doença, um conflito com alguém, o excesso do trabalho. Pode ser também um fardo de necessidades que criamos, que assumimos desnecessariamente, de coisas que nos negamos a resolver. Mas enfim, porque tudo isso se torna um peso? Porque a vida se torna tão complicada e pesada às vezes? Porque permitimos que a vida deixe de ser vida e se transforme em puro cansaço, em frustração, em peso? Tornamos nossa vida complicada, nos tornamos pessoas complicadas.

Independente de qual seja o nosso peso, o nosso fardo, o nosso cansaço, o Senhor nos propõe um caminho de libertação: o caminho da simplicidade.

 “Vinde a mim, todos vós, que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso”. É o convite a fazermos uma troca: entregamos o nosso peso, o nosso fardo ao Senhor, qualquer que seja, e Ele nos dá o dele, que é suave e leve.

Por que insistir em continuar a querer carregar o fardo de nossa vida sozinhos, sem Cristo, sem o seu socorro? Tenhamos a simplicidade, a humildade de reconhecer que precisamos da ajuda de Jesus. Hoje ele nos convida a entrarmos em sua escola, a escola da simplicidade – “aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” – para termos um coração simples, desarmado, livre dos pesos e rancores que acumulamos ao longo da vida.

O Senhor se alegra em ver em nós esta disposição para a mudança, pois somente os pequenos, os simples de coração são capazes de contemplar a vida não como um fardo, com cansaço, mas como um dom de alegria. “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”. Que Ele faça o nosso coração ser como o Dele: simples, manso e humilde.

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