III Domingo da Páscoa 24 – Lc 24, 35-48

D. Afonso VIEIRA, OSB

Irmãos e irmãs, a liturgia desse Domingo através das suas leituras nos convida a, olhando para a Igreja, e para os acontecimentos de nossa vida, a procurarmos, para nós, o sentido da ressurreição de Jesus e percebermos onde e como podemos nos encontrar com Jesus e como podemos mostrar ao mundo que Ele está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação. Jesus, ao vir ao mundo, tinha a salvação da humanidade como o objetivo. Por isso, além de sua preocupação em trazer a salvação da humanidade por meio de sua paixão, morte e ressurreição, ele cuidou para que a salvação alcançasse todos os povos da Terra por meio do trabalho da Igreja. Essa aparição do Ressuscitado, descrita no Evangelho, nos leva a considerar também neste domingo a assembleia eucarística como o lugar privilegiado da presença ativa do Senhor. Jesus que se faz presente no meio dos seus, trazendo o dom da paz, assim como trouxe a alegria aos discípulos, e os enviou em missão, para proclamar o perdão…

A primeira leitura nos traz um testemunho de Pedro sobre Jesus, onde ele garante aos “homens de Israel” – e a nós – que esse Jesus que as autoridades judaicas tentaram calar, está vivo e continua a oferecer a Vida a todos aqueles que se dispuserem a acolhê-la. Pedro e os outros discípulos são as testemunhas de Jesus e da sua proposta de Vida e vão transmitir a mensagem de salvação. Jesus tinha esse propósito, de levar a mensagem de salvação, desde o início de sua vida pública, e por isso Ele escolheu discípulos para estarem com ele, de modo que, vivendo com ele, seguindo seus exemplos e instruções, eles pudessem ser formados para se tornarem suas testemunhas qualificadas entre as nações. Jesus os formou primeiramente na submissão à vontade do Pai, ou seja, no amor à cruz e no esvaziamento de si mesmo (Mt 16:24-25) e os consagrou à salvação das almas (Jo 17:18-20), por isso a segunda leitura lembra que o discípulo, depois de encontrar Jesus e de aceitar a vida que Ele oferece, tem de viver de forma coerente com essa opção. O cristão, mesmo depois de optar por Jesus, continua sujeito à fragilidade e ao pecado; mas é confiando em Jesus e procurando viver de acordo com os mandamentos de Deus que ele conseguirá vencer o mundo.

Ao aparecer aos apóstolos após a ressurreição, Jesus completa os ensinamentos revelando a verdade do Evangelho a eles e dá uma demonstração prática da realidade da vida eterna, abrindo suas mentes para a compreensão das Escrituras e de seus ensinamentos, para torná-los suas testemunhas autênticas (cf. Atos 2:21-22), de modo que, por meio deles, sua salvação pudesse chegar a todos os homens. Essa manifestação do Senhor Ressuscitado aos apóstolos (cf. Evangelho) é essencial para confirmar e despertar a fé neles, em vista do anúncio dos acontecimentos pascais dos quais são testemunhas privilegiadas (cf. primeira e segunda leituras).

Lucas, ao nos relatar a aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos, oferece uma catequese sobre a forma de fazermos a experiência do encontro com Jesus, sempre vivo e presente no nosso caminho e na nossa história. A comunidade cristã é, para Lucas, o espaço privilegiado para fazermos essa experiência. O Evangelho nos mostra Jesus trabalhando precisamente para despertar e confirmar a fé em seus discípulos. À incredulidade inicial deles, ele responde com sinais tangíveis de sua presença “real”. E, para que esses “sinais” sejam compreendidos com fé, o Senhor interpreta os eventos de sua vida à luz das Escrituras, mostrando como tudo o que foi dito se cumpriu nele. Esse episódio do cenáculo é um modo de afirmar aos cristãos que Cristo continua vivo e presente, acompanhando a sua Igreja, e que os discípulos de todas as épocas, reunidos em comunidade, podem fazer uma experiência de encontro verdadeiro com Jesus ressuscitado. O que devemos procurar, neste texto, é algo que está para além dos pormenores, o que devemos perceber é a experiência de encontro com Jesus vivo e ressuscitado. Lucas procura deixar claro que a ressurreição de Jesus foi um fato real, incontornável, mas, contudo, os discípulos só descobriram e experimentaram essa realidade após um caminho longo, difícil, penoso, carregado de dúvidas e de incertezas.

O caminho da fé não é o caminho de evidências materiais, de provas palpáveis e demonstrações científicas; mas é um caminho que se percorre com o coração aberto à revelação de Deus, pronto para acolher a experiência de Deus e da Vida nova que Ele quer oferecer. Os discípulos, depois de compreenderem o que foi sua experiência com o mestre e para que foram chamados dão franco testemunho da Páscoa de Cristo e dos frutos de salvação trazidos por sua paixão-morte-ressurreição. Pedro anuncia aos judeus a ressurreição de Jesus, o Santo e Justo, que eles mataram, e os convida a se arrependerem e mudarem de vida “para que seus pecados sejam apagados” (primeira leitura); João nos assegura que Jesus é nosso auxílio diante do Pai e nos salva de nossos pecados porque ele mesmo expiou todos eles (cf. segunda leitura). Eles são suas testemunhas diante de “todas as nações, começando por Jerusalém”.

Cristo, o Filho de Deus, se revela como a fonte inesgotável da misericórdia, do mesmo amor que, deve se confirmar perenemente como mais poderoso do que o pecado. O Cristo Pascal é a encarnação definitiva da misericórdia, seu sinal vivo e salvador. Por isso todo cristão hoje é chamado a se tornar uma testemunha autêntica de Jesus, revivendo o mistério pascal em si mesmo, e nesse sentido a liturgia do tempo pascal coloca em nossos lábios as palavras do salmo: ‘Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor’(Dives in misericordia, 8) e assim os povos verão que sobre nós “bilha o esplendor de Vossa Face” (Sl 4)

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