HOMILIA DO XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (Mt 14,13-21)
D. Paulo DOMICIANO, OSB
Nada, diz São Paulo, é capaz de nos separar do amor de Cristo. Todas essas duras e difíceis realidades da vida, que podem nos desanimar e abater, podem se tornar uma ocasião para experimentarmos uma plenitude inesperada, que somente Deus pode nos oferecer. A palavra do profeta Isaías ressoa das profundezas dos séculos e questiona especialmente aqueles, incluindo nós mesmos, que pensam que não precisam de nada nem de ninguém: “Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa?” (Is 55,2).
Esta pergunta do profeta, que expõe nossa pretensão de autossuficiência e a ilusão de poder comprar tudo, é seguida por um convite: “Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo. Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida” (v.2-3).
Tudo isso se realiza para nós no Evangelho de hoje, que termina com uma nota que deve ser compreendida por nós como anúncio de Boa nova para todos os anseios de nossa vida: “Todos comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios” (Mt 14,20).
O episódio aqui descrito nos mostra Jesus como o novo Moisés, que se ocupa da multidão como de seu rebanho. O ambiente é o mesmo: um deserto. A situação também é semelhante: não têm o que comer. Contudo, Jesus oferece um maná, um pão, bem superior ao antigo. Ao mesmo tempo, o relato prefigura o dom da Eucaristia, sublinhado pela fórmula litúrgica do v. 19: “Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões”.
Os discípulos se preocupam com o que a multidão vai comer estando naquele lugar deserto e com a noite se aproximando. É uma preocupação válida, que demonstra a sensibilidade deles. Contudo, o que Jesus sente por aquela multidão vai além de preocupação, Ele sente compaixão por aquelas pessoas, por isso as cura, as alimenta com sua Palavra e cuida delas. A solução proposta pelos discípulos, por mais razoável que pareça, ou seja, mandá-las ir à cidade comprar o que precisassem, ainda é uma solução limitada e humana. Esta solução apresentada por eles é mais do que nunca a solução que consideramos como a única para resolver tantos de nossos problemas: comprar. Ao invés disso, Jesus propõe uma outra alternativa: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!”.
O desafio proposto pelo Evangelho é passar do “poder de compra” para a “alegria de dar”, e isso em todos os níveis da nossa vida relacional, da qual o alimento é um símbolo forte e expressivo.
Jesus quer que seus discípulos ultrapassem o limite da mera “preocupação” com o próximo para uma verdadeira “compaixão”, entrando na lógica do seu amor; deste amor que nada pode apagar ou separar, como ouvimos de São Paulo.
Eles ficam chocados com a proposta de Jesus, como, provavelmente, nós mesmos ficamos. Olham para si mesmos e constatam a sua indigência, sua pobreza e incapacidade frente a tamanho desafio. Mas não é só para isto que Jesus quer que eles olhem… quer que eles se deem conta dos recursos que possuem, mesmo que escassos. Todos nós temos algo que pode ser colocado à disposição da obra de Deus, que pode ser multiplicado. De nossa parte, somos convidados a apresentar o que temos e Ele, por sua vez, completará aquilo que nos falta. Assim, não há ninguém tão rico que não precise de nada, como também não há ninguém tão pobre que não possa oferecer algo.
Sem dúvida o aspecto miraculoso da multiplicação dos pães e dos peixes nos encanta neste episódio. Mas precisamos contemplar um milagre mais profundo e discreto que acontece neste episódio e que precisa acontecer hoje em nosso interior: o milagre da confiança em Jesus, que nos capacita a depositar em suas mãos os nossos cinco pães e os dois peixes que temos: sinal de nossa pobreza, mas tantas vezes, sinal de nossa ilusão de segurança material e de nosso apego egoísta. Este milagre desencadeia outros milagres: o milagre da generosidade e o da partilha, que nos introduzem na lógica da compaixão, na dinâmica do Reino de Deus. Estes milagres são os mais grandiosos aqui… e, por isso, os que mais desafiam a nossa fé.
Que através da participação da Eucaristia, onde o Senhor não multiplica simplesmente um pão material, mas nos sacia com o pão da vida, nos eduque para discernirmos o que realmente nos faz viver e nos eduque para a generosidade e a partilha de nosso pouco, que pode se transformar no muito daqueles que nada têm.