HOMILIA NA SOLENIDADE DE SANTA ROSA DE LIMA (Mt 13,44-46)
D. Paulo DOMICIANO, OSB
Há alguns domingos nós já meditamos sobre estas duas pequenas parábolas (XVII DTC). Elas falam da preciosidade do Reino de Deus e são, elas mesmas, como duas pedras preciosas dentro do Evangelho. Santo Irineu de Lyon comenta que, “na verdade, ele (Cristo) é ‘o tesouro escondido no campo’, isto é, no mundo (Mt 13,38). Um tesouro escondido nas Escrituras, porque se manifestou por meio de figuras e parábolas que, humanamente falando, não podiam ser compreendidas antes do cumprimento das profecias, isto é, antes da vinda do Senhor” (Contra as Heresias, IV, 26).
Apesar de valiosos, este tesouro e esta pérola, podem facilmente passar despercebidos por nós, que andamos tão distraídos à procura de outras riquezas. Descobrir o tesouro e dar-se conta de seu valor é, sem dúvida, uma grande graça; e isto as parábolas deixam claro para nós. Mas Jesus quer pôr em evidência ainda um outro aspecto: não é suficiente dar-se conta do valor do tesouro ou saber que a pérola é rara e preciosa se não há em nós a disposição e a coragem para conquistá-los.
Em ambos casos apresentados por nossas parábolas énecessário agir para adquirir o tesouro ou a pérola.O imperativo é o mesmo em ambos os casos: “ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13,44) e novamente “ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola” (13,46). Jesus nos convida, portanto, a perceber a preciosidade do Reino dos Céus e o fato de que sua chegada em nossa história e em nossa vida, embora surpreendente, exige que apreciemos seu valor e invistamos plenamente nele, concentrando todas as nossas melhores energias em sua busca.
Santa Rosa de Lima, que hoje celebramos, não só descobriu o grande tesouro do Reino dos Céus no terreno concreto de sua vida, mas pôs-se em busca para conquistá-lo, para viver só desse tesouro, abrindo mão de todos os possíveis tesouros que a vida poderia lhe oferecer. Ela, como este comprador de pérolas preciosas, encontrou a mais preciosa das pérolas, Jesus Cristo, e não hesitou em abrir mão de tudo para conquistá-la.
Embora seja verdade que devemos preferir a mensagem do Evangelho a qualquer outro tesouro, considerando-a mais preciosa do que qualquer “pérola de grande valor” (Mt 13,46), é ainda importante notar que tudo isso deve ser vivido com entusiasmo e alegria. O homem que encontra o tesouro no campo, corre “cheio de alegria” para vender “todos os seus bens” e comprar aquele campo.
Este entusiasmo e esta alegria são próprios de quem ama. Nunca devemos esquecer que tornar-se discípulo de Cristo não é uma mortificação, mas uma expansão da esperança e uma expansão da alegria de viver. Do mesmo modo, quem ama não teme correr riscos, pois no amor não há cálculos, mas confiança.
Santa Rosa, apesar de todas as suas mortificações e sacrifícios de penitência, próprios da espiritualidade de seu tempo, soube saborear e testemunhar a alegria de servir a Deus e de servir aqueles que mais necessitavam de seu amor, encontrando neles a face de Cristo, seu esposo. Com o coração cheio desta coragem, abriu mão do seu pouco para ser rica só de Deus.
Hoje, contemplando a beleza destas parábolas e a beleza do testemunho de Rosa de Lima, “a mais bela flor do Peru” e de toda a América, poderíamos prestar atenção particular sobre o que temos feito para conquistar este tesouro e esta pérola. E não só isso, mas como temos buscado o tesouro do Reino dos Céus em nossa vida cotidiana. A nossa tarefa, como foi de Santa Rosa, é compartilhar, na simplicidade da vida cotidiana, o fruto daquilo que buscamos e encontramos como o segredo íntimo da nossa alegria, ou seja, a boa-nova que recebemos e que transforma as nossas vidas.