HOMILIA DO XXII DOMINGO DO TC – A  (Mt 16,21-27)

Dom Manel Gasch, OSB – Abade de Montserrat

O tema mais clássico para uma reflexão sobre o Evangelho de hoje seria o da
abnegação, do sacrifício de si mesmo, da cruz que Jesus nos pede para
carregar com Ele.
Não quero negar a importância de tudo isso na vida cristã. Mas precisamos
reconhecer como essa linguagem é contracultural para nós hoje.
Perder a vida para reencontrá-la? Renunciar agora para ganhar depois?
Tentemos explicar isso a um jovem, a um adolescente e até mesmo a uma
criança que vive na imediaticidade de uma conexão permanente com a
realidade através do celular, esperando respostas antes mesmo de terminar
as perguntas!
Por isso, parece-me que as leituras de hoje nos convidam a colocar diante do
tema da cruz um prólogo necessário: o sacrifício pessoal só faz sentido
quando estamos seguros de que a cruz que carregamos é a cruz de Jesus,
e não simplesmente a nossa própria cruz.
E é aqui que entra o discernimento.
O discernimento não deveria ser apenas aquilo que fazemos antes de tomar
uma decisão. Deveria ser, antes de tudo, uma atitude permanente de escuta
de Deus.
Deus pode confirmar o caminho que estamos percorrendo. Pode abrir novas
possibilidades. Pode também nos fazer perceber autoenganos e armadilhas
que nós mesmos criamos.
As leituras de hoje nos mostram um discernimento muito ligado à
experiência de Deus, ao desejo de Deus.
Tudo começa reconhecendo Deus como a fonte de tudo.
Jeremias diz:
Vós me seduzistes.
O salmo:
Vós, Senhor, sois o meu Deus.
E São Paulo nos recorda o amor entranhado que Deus tem por nós.
E desse reconhecimento nasce a nossa disponibilidade:
Eu vos procuro.
Minha alma tem sede de vós.
É muito bom poder experimentar essa plenitude, essa paz de estar com
Deus. É uma verdadeira confirmação.
Mas não podemos permanecer somente nesse sentimento.
O passo seguinte é a obediência: colocar diante de Deus aquilo que fazemos,
aquilo que somos, aquilo que estamos vivendo, e perguntar se tudo isso
realmente nasce da sua vontade.
E é justamente aí que pode começar a cruz.
Às vezes, será a cruz das dificuldades próprias da fidelidade.
Outras vezes, será a cruz de descobrir que talvez tenhamos nos enganado.
Lembro-me de uma frase que um pregador jesuíta, o Pe. Armendáriz, nos
disse há muitos anos, durante a Quaresma de 1998:
A linha que separa procurar a Deus de usar Deus como desculpa para
procurar a nós mesmos é muito tênue.
É uma frase que merece ser guardada.
Porque podemos dizer que estamos buscando a vontade de Deus quando, na
realidade, estamos apenas procurando uma justificativa religiosa para fazer
a nossa própria vontade.
Por isso, gostaria de destacar dois critérios que podem nos ajudar no
discernimento.
O primeiro é o critério das dificuldades.
Se estamos no caminho da fidelidade, haverá dificuldades.
Jeremias experimenta isso de maneira muito forte. O chamado de Deus é
exigente, quase insuportável. Ele sente a força da missão, algo que não o
deixa sequer dormir.
Mas essa dificuldade pode ser simplesmente o preço da fidelidade.
Por outro lado, também podemos estar equivocados.
É o que acontece com Pedro no Evangelho.
Pedro fala de boa-fé. Quer proteger Jesus. Quer evitar que Ele sofra. Quer
poupá-lo das dificuldades de sua missão.
Mas Jesus é muito claro:
Você não pensa como Deus, mas como os homens.
Talvez esta seja a frase que resume toda a nossa reflexão:
Pensar como Deus.
Como é humana a atitude de Pedro!
E justamente por isso é tão fácil reconhecermo-nos nele.
Podemos ter boas intenções e, mesmo assim, não estar pensando como
Deus.
Por isso, tanto as dificuldades da fidelidade quanto o desconforto de
perceber que talvez não estejamos alinhados com Jesus podem se tornar
ocasiões de discernimento.
As dificuldades não precisam ser evitadas a qualquer preço.
Elas podem nos ensinar.
Podem nos converter.
Podem transformar nossa maneira de pensar e de viver.
Mas há um segundo critério que me parece igualmente importante: o
concreto.
É preciso amar o concreto.
Porque a vontade de Deus precisa tornar-se concreta na nossa vida.
Se continuássemos a leitura da Carta aos Romanos, encontraríamos muitos
exemplos disso. Quando fizemos nossa vestição e entramos no noviciado,
escolhemos justamente Romanos 12. E retiramos os dois primeiros
versículos — justamente os que ouvimos hoje.
Lembro-me do Pe. A. Cassià, nosso mestre, perguntando, surpreso, por que
os havíamos retirado, se eram tão bonitos!
Talvez a linguagem de sermos vítimas nos custasse um pouco…
Mas a intenção era tornar a nossa resposta a Deus concreta, para que
pudesse ser realmente compreendida e vivida.
E talvez esse seja o segundo critério: aquilo que Deus quer de nós precisa
aparecer na vida concreta.
Porque não há nada mais contraditório do que fazer grandes discursos sobre
o amor e, ao mesmo tempo, não tratar com amor aquele que está ao nosso
lado.
Todos sabemos disso por experiência.
A cruz não está somente nas grandes decisões.
A cruz está na vida concreta de cada dia.
Está na paciência.
Está no serviço.
Está no perdão.
Está na fidelidade às pequenas coisas.
Está naquele esforço silencioso que ninguém vê.
É o martírio sem sangue da vida cotidiana.
É aí que somos chamados a imitar Jesus.
Não para fugir da vida, mas para vivê-la plenamente.
Aqui e sempre.
Por isso, talvez a pergunta que o Evangelho de hoje nos deixa não seja
simplesmente:
“Qual é a cruz que eu tenho que carregar?”
Mas antes:
“Como posso saber se esta é realmente a cruz de Jesus?”
E a resposta passa pelo discernimento.
Escutar.
Desejar.
Obedecer.
Deixar-se corrigir.
Olhar para as dificuldades.
E, sobretudo, verificar se aquilo que dizemos buscar em Deus se transforma
concretamente em amor por aqueles que estão ao nosso lado.
No fundo, depois de tudo isso, o que nos resta é rezar.
Rezar para que o nosso coração permaneça aberto àquilo que Deus quer de
nós.
Que Deus nos dê a graça de discernir.
A graça de escolher.
A graça de obedecer.
E, sobretudo, a graça de pensar como Deus.
Amém.

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