DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR – A (Mt 28,16-20)

D. Paulo DOMICIANO, OSB

A bela oração da liturgia de hoje sintetiza o sentido profundo do mistério que celebramos com a Ascensão do Senhor e colocando nos lábios da Igreja esta súplica: “Deus todo-poderoso, fazei-nos exultar de santa alegria e fervorosa ação de graças, pois na ascensão de Cristo nossa humanidade foi elevada junto a vós e, tendo ele nos precedido como nossa cabeça, nos chama para a glória como membros do seu corpo”.

A Ascensão nos revela a nossa vocação mais profunda: sermos de Deus. Como batizados fazemos parte do Corpo de Cristo e estamos unidos a Ele. Se Ele vai para o Pai, como Cabeça desse Corpo, o destino dos membros todos só pode ser a união com o Pai também. Por isso a Ascensão nos lembra que não somos desse mundo, que fomos criados para muito mais. Nossa esperança está junto de Deus e por isso não vale a pena perder tudo por causa das coisas desse mundo. Como repetiremos daqui um pouco, no diálogo que inicia a liturgia eucarística, “Corações ao alto. O nosso coração está em Deus”.  Contudo, não deixamos de viver neste mundo.

Os anjos dizem aos apóstolos: “Homens da Galiléia, por que ficais aqui parados, olhando para o céu?” Viver a esperança na vida futura junto de Deus não significa ficar parado olhando para o céu. Como os apóstolos, nós também somos enviados pelo Senhor à realidade cotidiana deste mundo: “ide e fazei discípulos meus todos os povos, … e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (Mt 28,19,20). Mas não vamos sozinhos: o Senhor está conosco todos os dias, como Ele mesmo prometeu: “Eis que estarei convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 20). O Senhor sobe aos céus, mas deixa sobre a terra os seus discípulos, que somos nós, a Igreja, que, pelo batismo, fomos feitos sinais de sua presença. Ele nos confia o mandamento novo do seu amor para que possamos vivê-lo e ensiná-lo, dizendo: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34).

Como sacramentos de seu amor, nós somos sinais de esperança, que orientam a história dos homens para o seu verdadeiro destino, que é o céu. Nossa missão é testemunhar aos homens e mulheres de nosso tempo que existe algo maior e mais belo do que tudo isso que encontramos neste mundo; que apesar de tanto sofrimento e tristeza, o Senhor da vida está conosco, caminha conosco, e está nos conduzindo para a morada do Pai, para onde Ele sobe hoje, como nos prometeu no Evangelho há dois domingos. “Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (Jo 14, 3).

Jesus sobe ao céu, não para nos deixar – Ele não nos abandona –, mas vai, justamente, para “estar conosco” de um modo novo, para ser Emanuel, o Deus conosco. Com sua ressurreição, a vida de Jesus é nova, é a vida do Senhor vivente, aquele que dá a vida, a vida divina, que brota de sua intimidade com o Pai e que se comunica a nós pela força de seu Espírito. Ele volta para junto do Pai para interceder por nós, para nos enviar o Espírito que renova tudo e todos e revela a sua presença entre nós.

Antes de partir, Jesus pede aos discípulos: “permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto” (Lc 29,49). Assim, esta semana que segue a solenidade da Ascensão é para nós um convite para permanecermos unidos, junto com os apóstolos e com Maria, para pedir este derramamento do Espírito Santo sobre nós, sobre a Igreja e sobre o mundo.

Que a certeza da presença do Senhor entre nós nos anime em nossa esperança, como pedimos no início da nossa celebração, e nos encha de alegria. Que nosso coração se abra à novidade do Espírito Santo prometido, pedindo junto com toda a Igreja: Vinde, Santo Espírito.

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