Domingo da Oitava da Páscoa (Lc 24,13-35)
D. Afonso VIEIRA, OSB
Esta passagem do Evangelho me faz sempre lembrar uma reflexão que ouvi quando frequentava a catequese, quando era criança: o que mais faz sofrer a Deus é acreditar que Ele não nos ama verdadeiramente, é duvidar do Seu amor e da Sua misericórdia. E, precisamente hoje, neste Domingo da Misericórdia, em vez de considerar esse aspeto de incredulidade tradicionalmente associado a São Tomé, é com prazer que me deterei na sua profissão de fé “Meu Senhor e meu Deus “, no ato de fé que ele realiza graças a uma experiência totalmente pessoal do Ressuscitado, depois de ter colocado o dedo no lugar dos pregos e a mão no lado.
É, de fato, a partir da sua dúvida, a partir das suas interrogações, que Tomé será desafiado na sua fé e estabelecerá uma aliança de uma forma agora nova. Ele queria tocar nas chagas do crucificado agora ressuscitado, e o faz, mas imediatamente Jesus irá chamá-lo a ir mais além dessa experiência. Enquanto Tomé talvez quisesse reencontrar Jesus de Nazaré, com quem tinha caminhado e que tinha sido crucificado, é o Ressuscitado que virá até ele e o chamará a acreditar de outra forma, de maneira sempre renovada, como faz hoje por cada um de nós. Sim, se o crucificado sabe chegar até nós, encontrar-nos nas nossas cruzes atuais, no meio das nossas dificuldades, das nossas feridas, é sem dúvida para nos lembrar que temos de ir além da cruz na qual não estamos destinados a permanecer pregados para toda a eternidade. Ao permitir que toquemos nas suas chagas, Jesus nos revela, de certa forma, as nossas, as nossas próprias feridas na verdade, mas numa verdade que lhes dá sentido, que abre para a vida em vez de nos encerrar num sofrimento estéril. Ao tocar nas suas chagas, são as nossas próprias chagas e feridas que descobrimos na verdade e na luz do seu amor, as nossas, mas também as do irmão, da irmã. Essas feridas de Cristo que Tomé toca vão revelar uma misericórdia, uma compaixão, um amor que nos atingem até ali, até às nossas próprias feridas e outras dimensões infernais.
Tal como São Tomé, saibamos então entrar neste ato de fé que sabe, finalmente, reconhecer o Ressuscitado no crucificado. Sim, saibamos reconhecê-lo vivo nas nossas vidas, onde, para além e mesmo no coração das nossas feridas que ganham sentido graças às suas, Ele nos chama a ser vivos. Ousemos reconhecê-lo ressuscitado e saber-nos chamados a entrar nesta Ressurreição. Arrisquemo-nos desde já a este ato de fé. Ousemos ouvi-Lo dizer-nos novamente: a paz esteja convosco, bem-aventurados os que acreditam sem ter visto. Felizes aqueles que, ao verem as feridas do Mestre, conseguem compreender e assumir as suas próprias, as suas próprias feridas que, assim transfiguradas, serão tantas brechas e portas por onde poderá ser acolhida a graça da sua misericórdia, do seu amor, para que sejam também canais dessa misericórdia e desse amor louco que não cessa de querer alcançar todos, para que sejam vivos, para que todos permaneçam um dia no seu amor. Como sugere a primeira carta de São João, deixemos que o Espírito da verdade trabalhe mais nos nossos corações, nas articulações, nas conexões profundas do nosso ser; deixemos que este espírito da verdade evangelize mais as nossas profundezas para que escolhamos bem a vida e não a morte que certos valores contemporâneos gostariam de nos apresentar como um remédio. Acolhamos cada vez mais este amor do Pai que nos chega através das chagas do Filho, do Ressuscitado, que desde já deseja ardentemente levar-nos já no ímpeto de vida da sua Ressurreição, no ímpeto da Vida trinitária.