HOMILIA DO 2º DOMINGO DA QUARESMA (Mt 17, 1-9) ANO A

D. Afonso VIEIRA, OSB

Irmãos e irmãs, nesse segundo domingo da quaresma, a Palavra de Deus nos convida a com fé, escutar a voz de Deus, e nos colocar a caminho, sem reticências ou pretensões, na direção que Ele nos indicar. Pode ser que, à luz de nosso pensamen to, os caminhos que Deus nos aponta pareçam estranhos; mas eles conduzem à vida verdadeira e eterna. Vemos no Evangelho que Jesus pede aos discípulos que confiem n’Ele e que ousem segui-l’O no caminho de Jerusalém. Esse caminho, embora passe pela cruz, conduz à ressurreição, à vida nova e eterna. Aos discípulos, assustados, Deus confirma a essa verdade: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. E nós; ousaremos também nós seguir Jesus no caminho de Jerusalém?

O episódio da transfiguração de Jesus situa-se praticamente no final da “etapa da Galileia”. Durante os três anos que Jesus esteve a pregar ali, o Senhor havia pregado com palavras (Mt 5-7; 13) e com gestos poderosos (8,1-9,34) a chegada do Reino de Deus. Ao longo desse tempo, Jesus esteve sempre acompanhado por um grupo de discípulos, tinha escutado o chamamento de Jesus (Mt 4,18-22; 10,1-10,42) e que tinha decidido segui-l’O. Esses discípulos, depois de tudo o que tinham visto e escutado enquanto acompanhavam Jesus pelas vilas e aldeias da Galileia, estavam convencidos que Ele era realmente o Messias que Israel esperava (Mt 16,13-20). No trecho que acabamos de ouvir, Jesus, acompanhado por Pedro, Tiago e João, subiu ao “monte”. A narração do que aconteceu nesse dia naquele monte vai ser construída a partir de elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. O monte nos situa num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é num monte (o Sinai) que Ele faz uma aliança com o seu Povo e dá a Moisés as tábuas da Lei. A mudança do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus. Além disso, o branco é a cor de Deus: indica que estamos no âmbito do divino.

A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus, pois, era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (Ex 40,35; Nm 9,18.22; 10,34), e Moisés e Elias, as duas figuras do Antigo Testamento que também aparecem no cenário da transfiguração de Jesus, representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus). São personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (Dt 18,15-18; Mal 3,22-23). As tendas que Pedro pretende montar serão talvez uma forma de referir a “esperança” dos discípulos, assustados com as implicações do seguimento de Jesus. O “medo” que toma conta dos discípulos é a reação habitual do homem diante da manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus (Ex 19,16; 20,18-21). Mas o elemento mais significativo é, sem dúvida, “a voz” que vem da “nuvem”. Essa “voz” dirige-se aos discípulos e declara solenemente: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda o meu agrado. Escutai-O”.

O próprio Deus “apresenta” Jesus e garante que Ele é “o Filho” que veio ao encontro dos homens com um mandato do Pai. E o testemunho de Deus sobre Jesus completa-se com o imperativo “escutai-o”. Os discípulos ficam assim prevenidos de que devem escutar e acolher as indicações de Jesus, segui-l’O sem hesitações e sem medos pois o caminho que Ele propõe está de acordo com o Deus. A glória de Deus que se manifesta em Jesus, as “vestes de uma brancura refulgente” (lembram as “túnicas brancas como a neve” do “anjo do Senhor que, na manhã de Páscoa, apareceu às mulheres que tinham ido procurar Jesus ao túmulo – Mt 28,2-3). Os discípulos são, assim, convidados a olhar para depois da cruz e a descobrir que, no final do caminho de Jesus, não está o fracasso, mas está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.

Mateus, na linha do que Marcos já tinha feito (Mc 9,2-10), pegou em todos estes elementos e com eles construiu a sua fala, na qual, Jesus é apresentado, antes de mais nada, como o Filho, o Eleito, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele não é um visionário que vive iludido e que não tem os pés na terra; nem é um revolucionário com sede de protagonismo que se aproveita, em benefício do seu projeto político, de um grupo de discípulos ingénuos… Jesus é o Filho de Deus, enviado aos homens para lhes propor a salvação e a Vida verdadeira. Tudo o que Ele diz e propõe está de acordo com o projeto salvador de Deus. Os discípulos devem escutá-lo, levar a sério as suas indicações, mesmo quando Ele propõe um caminho de morte, de dom da vida até às últimas consequências (Mt 16,24-28). Jesus é o Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). Ele veio concretizar as promessas que, ao longo da história da salvação, Deus fez ao seu Povo.

Finalmente, Jesus é o novo Moisés, Aquele através de quem Deus dá ao seu Povo a nova Lei e através de quem propõe aos homens uma nova Aliança. Da ação libertadora de Jesus, o novo Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Guiado por Jesus, esse Povo caminhará pelo deserto da cruz e da morte até chegar à Terra Prometida, onde encontrará Vida em abundância. “Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos” (vers. 9) é a ordem do Senhor. É provável que só mais tarde, após a ressurreição de Jesus, tenha resultado claro para os discípulos o que tinham experimentado no monte da transfiguração. Mas, desde aquele “momento” com Jesus constituiu para os discípulos uma injeção de esperança e deu-lhes o ânimo de que necessitavam para seguirem atrás de Jesus no caminho para Jerusalém.

Meus irmãos e irmãs, quem morre com Cristo, com Cristo ressuscitará. Quem luta com Ele, com Ele triunfará. Esta é a mensagem de esperança que a cruz de Jesus contém, e nos exorta à fortaleza na nossa existência. A cruz cristã não é um objeto qualquer ou um adorno para usar, mas a cruz cristã é um apelo ao amor com que Jesus se sacrificou para salvar a humanidade do mal e do pecado. Neste tempo da Quaresma, contemplamos com devoção a imagem do crucifixo, Jesus na cruz, pois ele é o símbolo da nossa fé, morto e ressuscitado por nós. Façamos com que a Cruz marque as etapas do nosso itinerário quaresmal para compreender cada vez mais a gravidade do pecado e o valor do sacrifício com o qual o Redentor nos salvou, a todos nós.

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