HOMILIA DO 1º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A

D. Agostinho BARCELOS, OSB

Meus caros amigos,
a liturgia de hoje nos convida a nos colocarmos sob a proteção de Nosso Deus, confiantes de que Ele nos
sustentará em meios às nossas tentações e tribulações de nossa vida, especialmente neste Tempo quaresmal. Tal
como ouvimos no Evangelho, é um tempo de prova mas também de abrir-nos ao Espírito de fidelidade que
habita em nós e nos fazer desejar viver a vida de Deus.
A primeira leitura da Celebração Eucarística deste domingo nos é bem familiar. Esse relato do Gênesis
sobre a queda de Adão e Eva, a transgressão à Palavra de Deus, é extremamente rico. Deus é a origem absoluta
da vida humana, e é justamente o Seu sopro – o seu Espírito – que dá vida ao homem. O texto fala da beleza
que atrai o nosso olhar – pois Deus faz brotar da terra belas árvores – e dos frutos que nosso paladar deseja. Mas
também há um limite que precisa ser seguido, há uma Palavra a ser observada e ela garante a vida. Então a
serpente sorrateiramente afirma que Deus mente, e que assim fazia para privar o homem e a mulher de algo que
eles ainda não têm. A semente da desconfiança é lançada ao coração do homem, e ela é capaz de solapar
facilmente qualquer relação de amor, de amizade. Adão e Eva se abrem à mentira e farão a experiência da morte
da relação com Deus antes da morte entrar no mundo. Talvez o sentido do paladar tenha sido usado nesse relato
justamente porque aquilo que comemos, que mastigamos, entra para dentro de nosso corpo de um modo bem
concreto, material. E, dessa forma, nos revela que naquele diálogo entre a serpente e Eva, algo entrou para o
interior do homem. Ao longo de nossa vida precisamos continuamente olhar para dentro de nós, pois às vezes
reconhecemos que aquela semente ainda está lá, dentro de nós, nos amargurando e murmurando interiormente:
“Se Deus existisse, Ele teria… se Deus se importasse, Ele não permitiria…”
O salmo que cantamos é a nossa resposta à Palavra que ouvimos. “Piedade, ó Senhor, tende piedade”
porque, ao olhar para o caminho de Adão e Eva, posso reconhecer aquele pecado ressoando em minha vida.
A segunda leitura é a uma mensagem de esperança. Sim, a morte entrou no mundo pela transgressão de
Adão, mas Deus preparou sua salvação em Cristo Jesus. Se em Adão houve um rompimento, em Cristo houve
uma reintegração definitiva, plena da misericórdia do Deus Vivo. A obediência do Cristo é a fonte que nos
liberta de nós mesmos, e das nossas tentativas de construir nossa vida à margem de Deus. Para o cristão, Deus
não é um adendo, mais um elemento que ele deve agregar à sua vida. Não! Cristo é o próprio fundamento da
vida, Aquele que não somente nos ensina a viver como filhos de Deus, mas nos dá a Graça de sermos e agirmos
como filhos por meio de Seu Espírito.
Então chegamos ao Evangelho, que nos permitiria uma grande diversidade de reflexões. Quem conduziu
Jesus ao deserto foi o Espírito, pois é Ele que sustenta o Cristo em seus momentos de provação. O Espírito é a
presença viva do amor de Deus Pai no coração do Cristo e também nos nossos. E Ele impulsiona também a nós
para o deserto. Ou seja, o Espírito desperta em nosso íntimo o desejo de estar a sós com Deus. Nos mostra como
é necessário abrir tempo e espaço para esse encontro em nossas vidas. Faz com que nos distanciemos da correria
da vida para podermos viver, de fato. Pois muitas vezes acabamos por nos desumanizar e nos afastar de Deus, de
nós mesmos e dos outros. O deserto nos humaniza porque nos ajuda a reencontrar o que há de mais verdadeiro
e de mais profundo em nós – nos permite pesar e reavaliar todas as coisas. E, quem sabe, recomeçar de um outro
modo, numa nova perspectiva. Porque o diabo, “aquele que divide”, está sempre próximo de nós. E é o Espírito
quem nos permite perceber sua presença e nos ajuda a discernir o que convém abraçar e o que precisa ser
deixado para trás. Ler esse Evangelho à luz do relato do Gênesis nos permite compreender melhor o sentido da
atitude de Jesus de jejuar durante quarenta dias e quarenta noite. Enquanto o comer do fruto da árvore do bem
e do mal tornou-se expressão do rompimento com Deus, aqui o jejum torna-se expressão do absoluto de Deus,
da busca do “único necessário”, tornando-se um convite para darmos a Deus o lugar que lhe é devido. O relato
evangélico também nos diz que o diabo pôs Jesus Cristo “sobre a parte mais alta do Templo” e “para um monte
muito alto”. Conosco ele faz o mesmo, porque o maligno gosta de nos seduzir por meio da altura, e desperta em
nós a sensação de que estamos sobre os outros, de que podemos mais que eles, ou sabemos mais, ou
influenciamos mais – para usar um termo tão atual. Por isso importa “vigiar e orar” para não nos enganarmos.
Que o Cristo, nossa vida e nossa paz, continue nos sustentando em nossa caminhada quaresmal.

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