DOMINGO DE PENTECOSTES (At 2,1-11)
D. Paulo DOMICIANO, OSB
Nos Atos dos Apóstolos lemos que após a sua ressurreição, durante quarenta dias, Jesus apareceu aos apóstolos e falou-lhes do Reino de Deus. Certo dia, enquanto comia com eles, ordenou-lhes: “Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da promessa do Pai, da qual vós me ouvistes falar: ‘João batizou com água; vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias’” (At 1,4-5). Mais adiante, acrescentou: “recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da terra” (At 1,8).
Tendo contemplado o Senhor subir aos céus, como celebramos no último domingo, os apóstolos, junto com Maria e outros discípulos, permaneceram em Jerusalém, como em um retiro, reunidos unânimes em oração (cf At 1,14; 2,1), aguardando a realização da promessa de Jesus. Em uma manhã como esta, aqueles homens e mulheres temerosos, trancados no Cenáculo – porque sabiam que estavam sendo perseguidos – experimentaram a poderosa presença do Espírito Santo, que transformou suas vidas para sempre, fazendo deles instrumentos que mudaram a história.
De modo inesperado, o Espírito desceu sobre eles em forma de línguas de fogo, como ouvimos no relato dos Atos dos Apóstolos, e “todos ficaram cheios do Espírito Santo”. O Espírito os encheu com o seu Amor, com o Amor de Deus, como cantamos: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo seu Espírito que habita em nós” (cf Rm 5,5). Este Amor os envia agora a toda a terra para proclamar as maravilhas de Deus, a boa nova do perdão dos pecados e do dom da vida divina.
Os Apóstolos são arrancados de seu medo e de sua timidez, abrem as portas do cenáculo, onde estavam trancados e escondidos, e começam a anunciar com toda a força e coragem as maravilhas de Deus. A multidão, confusa, os compreende em sua própria língua. Isso porque a linguagem do amor é universal, rompe as barreiras das diferenças e das distâncias, estabelecendo as pontes da comunhão e da fraternidade, que brotam do seio da Trindade. Essa linguagem é compreensível para todos.
O milagre das línguas não é secundário no relato; é mais uma prova do amor de Deus. Pentecostes é o antídoto do episódio de Babel, que ouvimos na primeira leitura da Vigília desta noite (Gn 11,1-9). Em Babel todos falavam a mesma língua, mas, por causa de seu orgulho e por terem buscado a própria glória e não a de Deus, as línguas se confundem. O orgulho e o egoísmo provocam justamente isso: cada um fala a língua dos próprios interesses, rompendo a comunicação. Em Pentecostes, ao contrário, as pessoas entendiam o que os Apóstolos falavam, pois eles se tornaram instrumentos da voz de Deus, eles desapareceram, dando lugar a Deus, com coração simples, humilde, reconhecendo o próprio pecado. A elevação da torre de Babel é fruto do desejo de autoafirmação e de exaltação do ser humano, mas, em Pentecostes temos justamente o contrário, onde se edificam os fundamentos do edifício da Igreja, sobre os alicerces da unidade, para glorificar a Deus.
Peçamos hoje ao Senhor que renove em nós esta fonte de amor e de comunhão que borbulha em nosso interior desde o nosso batismo, a fonte do Espírito Santo. Que Ele sopre mais uma vez sobre nós dizendo: “Recebei o Espírito Santo”.
Que os homens e mulheres de nosso tempo encontrem em nós o testemunho do Amor de Deus derramado em nossos corações. O mundo precisa ouvir que Deus continua realizando maravilhas entre nós, que Ele é o Senhor da Vida, não da morte ou da destruição, e pode tudo renovar, como cantamos no Salmo: “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai” (Sl 103).
Nós temos a missão de anunciar aos nossos irmãos que estão desanimados e tristes, que perderam sua esperança, sua fé, que o Senhor ressuscitado está junto de nós e não nos abandona. Que seu Espírito habita em nosso coração e nos fortalece para recomeçar, para retomar o caminho e reconstruir a vida.
Que a Virgem Maria, a Mãe do Cenáculo, interceda por nós, para que sejamos abertos, dóceis e disponíveis ao Espírito como ela foi, como foram os Apóstolos, para que sejamos, também nós, testemunhas audaciosas do Amor e da Misericórdia de Deus. Por isso peçamos: Vinde Espírito Santo!