HOMILIA DOMINGO DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR (Jo 20,1-9)
D. Paulo DOMICIANO, OSB
“No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada” (Jo 20,1); “Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo” (20,3).
Junto com Maria, as outras mulheres, Pedro e João, somos nós hoje os peregrinos do oitavo dia, que saem à procura de Jesus. Aproximando-nos de um túmulo vazio com os perfumes de nossa boa vontade, nossa necessidade de respostas, a dor de nossas perdas… Mas o que encontramos é apenas um túmulo vazio. Este túmulo vazio não é prova da ressurreição… contudo, olhando para dentro e vendo as faixas de linho no chão, João “viu e acreditou” (20,8). Mas o que ele vê é justamente o contrário daquilo que ele acredita. Vê a ausência e acredita na presença do Senhor Ressuscitado.
Os discípulos testemunharam a Paixão, a morte e o sepultamento na Sexta-feira Santa. Mais tarde, viram Jesus nas diversas aparições após a Ressurreição, como contemplaremos nos Evangelhos desta semana. Mas ninguém estava presente no momento da Ressurreição. Ninguém “viu” esse momento tão crucial. A vida de Jesus pode ser objeto de conhecimento histórico e científico; pode ser interpretada pelo teatro, pelo cinema, pelas séries de TV, mas a Ressurreição não é nem pode ser objeto de conhecimento científico. Este evento só pode ser compreendido a partir do espaço vazio do sepulcro, o espaço de fé.
Diante da efusão de alegria dos aleluias que este dia nos inspira, o Evangelho da manhã de Páscoa nos convida a uma atitude silenciosa e contemplativa. A celebração da Ressurreição nos introduz em um sepulcro vazio e nos indica que para fazermos a experiência da ressurreição é preciso entrar neste espaço onde as palavras cessam e nossa expectativas humanas precisam ser despojadas.
O Senhor nos deixa alguns traços, algumas pistas de onde e como podemos encontrá-lo. Não é, decididamente, em um cenário de espetáculo, como a arte ao longo da história preferiu retratar este momento, mas dentro de um túmulo vazio. É lá, no íntimo de nós, onde cada um é habitado por suas próprias sombras e vazios, dúvidas e incoerências, medos e angústias, que o Senhor deseja fazer brotar a nova luz, a nova esperança, a nova alegria.
No Evangelho desta noite o anjo e o próprio Senhor Ressuscitado enviam as mulheres para anunciar aos outros discípulos: “Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão” (Mt 28,10). Sim, o Senhor também nos indica a direção de nossa Galiléia para encontrá-lo, no cotidiano de nossa vida.
Tendo visitado o túmulo vazio, tendo aceitado entrar neste espaço sombrio de nosso coração, em silêncio e com fé, onde enterramos nosso velho homem, nossas ambições, nosso orgulho e vaidade, somos convidados a ir ao encontro do Ressuscitado na Galiléia de nosso cotidiano: no pão repartido, no olhar de compaixão, nos pés que precisam ser lavados, no ombro que é oferecido ao outro. Este caminho nos coloca na direção da vida nova e transfigurada que o Ressuscitado nos oferece hoje. Como ouvimos de São Paulo: “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto”. Ressuscitamos com Cristo em nosso batismo; ressuscitamos com Ele quando somos alimentados com seu Corpo e seu Sangue. Por isso, fomos capacitados a viver desde já a vida do alto, a vida dos filhos de Deus, reconhecendo nos espaços vazios de nossa vida a presença luminosa e transformadora de Jesus Ressuscitado.
Peçamos ao Senhor que a sua Ressurreição seja para nós a fonte de uma vida nova, de uma transformação profundo e duradoura em nosso ser, em nossas atitudes e escolhas de cada dia. Por isso, retomemos a nossa oração do início de nossa celebração: “Concedei que, celebrando a solenidade da sua ressurreição, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos para a luz da vida”.