HOMILIA CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR
D. Paulo DOMICIANO, OSB
A Liturgia da noite de ontem nos introduziu no primeiro ato do drama divino da Paixão. Na Última Ceia, Cristo ofereceu sacramentalmente aos discípulos seu Corpo e seu Sangue, no pão e no vinho, antecipando a imolação sangrenta na cruz, na Sexta-feira.
É na cruz que Jesus radicaliza a sua entrega ao Pai e seu sacrifício por nós. Como ouvimos no Evangelho de ontem, Ele nos amou até o fim. Ou seja, nos amou em excesso, sem medir consequências, sem nenhuma reserva; nos amou até a última gota de sangue, até o último suspiro, quando exclama do alto da cruz: “tudo está consumado” e entrega o seu Espírito nas mãos do Pai.
Contudo, este último suspiro não põe fim ao seu amor, mas o multiplica. Do lado aberto de Cristo na cruz jorram sangue e água, sinais do Batismo e da Eucaristia, origens da Igreja. Assim, a cruz de Cristo se torna para nós o lugar e a fonte de onde brotam a abundância deste amor que se oferece até o fim, da libertação e da vida nova para nós conquistadas.
É por isso que ontem cantávamos a bela antífona de entrada: “Nós, porém, devemos gloriar-nos na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo; nele está a salvação, nossa vida e ressurreição; por ele somos salvos e libertos” (Cf. Gl 6, 14).
Cruz e salvação, morte e ressurreição, fracasso e glória se conjugam no mistério da cruz de Cristo. Nesta celebração da Paixão do Senhor, somos chamados a ir além para reconhecer, por trás das aparências de fracasso, a vitória de um amor que se deixa aniquilar sem, no entanto, deixar-se vencer. Por isso, as palavras da Carta aos Hebreus tocam diretamente o cerne de nossa busca por uma resposta a tanto amor: “Aproximemo-nos então, com toda a confiança, do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno” (Hb 4,16).
A escuta do relato da Paixão de nosso Senhor nos impele a nos aproximar da cruz, o trono da graça de Cristo, do qual esperamos receber a misericórdia e a força que nos capacitam a dar uma resposta de amor semelhante a daquele que nela está assentado. Nós adoramos esta cruz, a abraçamos e beijamos, como sinal de nosso desejo de assumir em nossa vida a nossa própria cruz, apesar de nossas fraquezas e infidelidades.
O crucificado não nos dá uma resposta prontas aos paradoxos que nos afligem nesta vida, mas Ele os assume sobre si. Ele “tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores” (Is 53, 4), nos anuncia o profeta. Deste modo, não nos oferece respostas, mas nos abre à possibilidade de encontrar sentido em nossas dores e angústias, nas divisões e traições, nas injustiças e humilhações, nos sofrimentos e na morte.
A última palavra para todos estes paradoxos não é o desespero, mas um grito de confiança levado ao máximo limite nos lábios do Salvador: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. “Confiança que resiste até quando tudo se cala” (pp Leão XIV). Por isso, peçamos ao Senhor que aumente em nós esta ousadia da confiança, a ousadia do amor e da fé, para que, unidos a Cristo, abracemos a nossa cruz e o sigamos em sua Páscoa.