D. Paulo DOMICIANO, OSB
Não me canso de repetir a cada ano o quando é impactante para mim celebrar a Vigília Pascal, a “mãe de todas as vigílias”, como diz Santo Agostinho: há praticamente 2000 anos a Igreja se reúne todos os anos nesta noite santa para celebrar a Páscoa do Senhor, a noite da ressurreição, a noite da vida nova! E cabe a nós, hoje, como herdeiros deste tesouro, viver novamente os mistérios de nossa salvação através desta liturgia.
Estamos no coração da noite – este é o sentido de uma vigília – durante a passagem das trevas para a luz. Esta passagem é uma expressão simbólica da longa trajetória desde as trevas e o caos original do início do Gênesis até a luz de Cristo ressuscitado na manhã de Páscoa.
A longa sequência de leituras do Antigo Testamento, que acabam de ser proclamadas, não pretende ser um simples resumo da história da salvação – pois faltariam aqui episódios essenciais –, mas um caminho que nos conduz, pedagogicamente, a contemplar o modo de Deus agir entre nós através das várias passagens das trevas para a luz ao longo de toda a história da salvação. Esta história começa com a separação da luz das trevas no caos primordial. Depois, há a passagem do caos religioso das muitas religiões antigas para a luz da revelação de Deus a Israel. Segue-se a passagem do cativeiro no Egito para a libertação do Êxodo. Outra passagem muito mais importante vem a seguir: a do coração de pedra para o coração de carne animado pelo Espírito. E, finalmente, a grande passagem de Jesus, das trevas da morte para a luz da Ressurreição.
Isso nos mostra que a história humana e a história de cada um de nós se constitui de uma série de passagens das trevas para a luz, da tristeza para a alegria, do pecado para a vida. E deste modo, Deus vai realizando uma obra nova, uma nova criação em nossas vidas a cada uma dessas passagens, dessas pequenas páscoas. Contudo, nenhuma delas se compara à obra nova realizada por Cristo em sua Páscoa.
Neste sentido, gostaria de retomar com vocês a primeira oração da liturgia da Palavra, que segue imediatamente a leitura do relato da Criação e o canto do Salmo 103, onde rezamos:
Deus Eterno e todo-poderoso, que dispondes de modo admirável todas as vossas obras, dai aos que foram resgatados pelo vosso Filho a graça de compreender que o sacrifício do Cristo, nossa Páscoa, na plenitude dos tempos, ultrapassa em grandeza a criação do mundo realizada no princípio.
Temos aqui uma síntese e um anúncio da obra da Salvação: a Criação é uma obra maravilhosa, como ouvimos: “Deus viu que tudo era bom/belo”, o Genesis repete como um refrão. Estamos acompanhando a missão dos astronautas enviados à Lua e ficamos fascinados, como eles, certamente, com a beleza do universo, com sua imensidão e perfeita harmonia entre todos seus elementos. Mas a nova Criação inaugurada no Novo Adão, Cristo Jesus, é uma obra ainda mais maravilhosa, que ultrapassa em grandeza a criação do mundo realizada no princípio. Pelos sacramentos da Páscoa — batismo, crisma e eucaristia —, nos é dada a possibilidade de participar desta nova criação e de sermos, nós mesmos, recriados, re-generados, assumindo a vida nova de Cristo em nós. É o que São Paulo nos anuncia em sua carta ao Romanos: “Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós levemos uma vida nova” (Rm 6,4).
Mas como esta nova criação é possível? Na sequência ao relato da Criação, nós respondemos com o Salmo 103, suplicando ao Senhor para que envie sobre nós o seu Espírito: Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra. Não somente a face da terra, mas o nosso coração e toda a humanidade. Este renascimento se realiza em nós em nosso batismo, a obra mais maravilhosa que a própria obra da criação, pela ação do Espírito Santo que o Ressuscitado nos envia. Assim, nesta noite, nós temos a graça de renovar nossas promessas batismais, renovar nosso desejo de vivermos como filhos de Deus, conformados à Jesus Cristo, o Filho Único do Pai, sendo alimentados por seu Corpo e seu Sangue e renovados por seu Espírito.
Que o Senhor abra nossos corações e nossa inteligência para compreendermos a grandeza deste dom que nós recebemos. Seja este o motivo de nossa verdadeira alegria: sermos novas criaturas em Cristo. Assim como as mulheres que receberam o anúncio do anjo e do próprio Ressuscitado, que vem ao nosso encontro hoje, sejamos nós a correr para anunciar esta boa-nova ao mundo: “Alegrai-vos!”; “Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos”. Aleluia!