3º Domingo do Tempo Comum – Ano A Mt 4,12-23
Dom Afonso VIEIRA, OSB
A liturgia do terceiro domingo comum nos revela o projeto de salvação e de vida plena que Deus tem para oferecer ao mundo e aos homens. O próprio Deus nos visita, toma nota das nossas dificuldades, cuida das nossas feridas, mostra-nos em que direção devemos caminhar para chegarmos à vida. Ele fica à nossa espera para nos acolher e abraçar no final do caminho. A sua salvação ilumina cada um dos nossos passos.
O Evangelho nos mostra a concretização da promessa feita por Deus através do profeta Isaías. Jesus é a luz que começa a brilhar na Galileia para iluminar os caminhos e as vidas de todos aqueles que habitam “na sombria região da morte”. Jesus anuncia a chegada de Deus para fazer nascer um mundo novo, mais justo, mais fraterno e mais humano. Ele não está sozinho neste projeto, mas junta à sua volta alguns discípulos e os convida a colaborar com Ele na construção do Reino de Deus.
Na primeira leitura, o profeta Isaías, que é um poeta – que fala aos habitantes de Judá num tempo histórico marcado pelo imperialismo da Assíria – anuncia uma luz que Deus irá fazer brilhar por cima das montanhas da Galileia e que porá fim às trevas que se abateram sobre aquela região. Talvez as intervenções de Deus não estejam sincronizadas com nossa impaciência e a nossa pressa; mas Ele nunca deixará de vir em socorro dos seus filhos que caminham no mundo.
O evangelista Mateus, retomando uma imagem do livro de Isaías, nos diz que Jesus é para nós a luz. Na nossa vida, vemos frequentemente trevas, resistências, dificuldades, tarefas não resolvidas que se acumulam diante de nós como uma enorme montanha, problemas com os filhos ou os amigos, com a solidão, o trabalho que não gostamos…
É entre todas estas experiências dolorosas que nos chega a boa palavra: não vejam apenas as trevas, vejam também a luz com que Deus ilumina a vossa vida. Ele enviou Jesus para partilhar convosco as vossas dores. Podem contar com Ele, que está ao vosso lado, luz na escuridão.
Não somos nós que damos à nossa vida o seu sentido último. É Ele. Não é o nosso trabalho, nem o nosso conhecimento, nem o nosso sucesso. É Ele e a luz que Ele nos distribui. Porque o valor da nossa vida não se baseia no que fazemos, nem na consideração ou influência que adquirimos. Nossa vida assume todo o seu valor porque Deus olha para nós, volta-se para nós, sem condições e independentemente do nosso mérito.
A sua luz penetra nas nossas trevas mais profundas, mesmo onde nos sentimos radicalmente questionados, penetra no nosso erro. Podemos confiar precisamente quando sentimos os limites da nossa vida, quando ela nos pesa e o seu sentido parece escapar-nos. O anúncio do Evangelho não é um concurso de eloquência. O “enviado” deve proclamar a Boa Notícia da salvação numa linguagem simples e despida de enfeites, a fim de não distrair os destinatários da essência da mensagem (vers. 17).
Com a Carta Apostólica em forma de Motu proprio “Aperuit illis”, o Papa Francisco estabeleceu que “o terceiro domingo do Tempo Comum seja dedicado à celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus”.
O imenso povo nas trevas viu uma luz brilhante; uma luz apareceu àqueles que estavam no reino escuro da morte! Através do Evangelho, que Cristo anuncia, cumprem-se as palavras proféticas de Isaías (Is 9, 1). Na escuridão — símbolo de confusão, de erro e também de morte — irrompe repentinamente a luz, que é o próprio Filho de Deus, que assumiu a natureza humana; ele, o Verbo, “a verdadeira luz, que ilumina todo o homem” (Jo 1, 9).