HOMILIA DA EPIFANIA DO SENHOR (Mt 2, 1-12)

D. Paulo DOMICIANO, OSB

Dentro da celebração do mistério do Natal, a liturgia de hoje nos coloca diante destes personagens misteriosos, vindos do Oriente e que representam todos os homens e mulheres, de todas as nações e todas as épocas, que buscam com sinceridade de coração a revelação de Deus em suas vidas, manifestando, assim, que a salvação trazida por Jesus ao mundo é para todos. Guiados por uma estrela, eles chegaram à Jerusalém, “perguntando: ‘Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’” (Mt 2, 2). Esses homens, vindos de longe, não pertencem à mesma fé de Israel, mas estão em busca do “Rei dos judeus”, o Messias.

Contudo, eles esbarram na ignorância daqueles que deveriam reconhecer este acontecimento tão esperado e desejado, deveriam saber onde encontrar este rei nascido, saber quem é este menino prometido. Nem o rei Herodes, nem os sacerdotes, nem os mestres das Escrituras, nem o povo judeu estava sabendo de nada, estavam todos cegos.

Infelizmente, ainda hoje isso acontece: é possível conhecer as Escrituras, ser uma pessoa bastante religiosa, cumprir com os deveres morais e espirituais e, ao mesmo tempo, permanecer em uma situação de total cegueira ou surdez, com um coração duro e insensível à manifestação de Deus em nosso meio.

Diante da pergunta dos magos, Herodes convoca todos os sacerdotes e mestres das Escrituras para perguntar onde deveria nascer o Messias. Eles conhecem tudo das Escrituras, mas, como disse, estão cegos e insensíveis. Os sábios estrangeiros, contudo, se deixam interpelar por esta Palavra, que lhes é anunciada, mudando a sua rota, e conseguem ver a estrela novamente e, cheios de alegria, são conduzidos ao menino Rei Messias em Belém.

Certamente eles esperavam encontrá-lo no palácio do rei ou no templo, cercado por uma corte, como um príncipe, mas o que encontram é completamente diferente e desconcertante. Como os pastores, eles encontram um frágil menino envolto em panos, deitado num berço pobre, numa casa de pais pobres. Poderiam pensar que tinham se enganado em sua busca, sentindo-se frustrados, depois de percorrem tantos caminhos. Eles contemplam não o que há muito aguardavam e buscavam, mas algo diferente. Como convertidos, transformados em suas mentes e corações, reconhecem a realeza na anti-realeza. Com os olhos e o coração abertos, eles acolhem a grandeza e a divindade escondidas na pequenez e na fragilidade daquele pequenino. “Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11).

Guiados pela luz divina e inspirados pelas Escrituras, que acabaram de ouvir, os Magos compreendem, chegam à fé; e não é por acaso que Mateus observa que eles “retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” (Mt 2,12), isto é, por outra maneira de pensar e viver.

Esta manifestação – Epifania – que celebramos hoje é a prova do amor de Deus revelado a todas as nações da terra, que ilumina todo aquele que se abre e se dispõe a se deixar guiar por ele, mudando seus caminhos, abrindo mão de seus planos e projetos pessoais, tantas vezes grandiosos e espetaculares, para acolher a novidade do amor de Deus, que se revela na pessoa de Jesus Cristo, nascido na pequenez do cotidiano.

Mas é nós, o quê e como estamos buscando?

Não sei se vocês sabem, mas o Brasil é o terceiro país no mundo que mais utiliza a ferramenta de busca Google. Ou seja, o brasileiro é um povo curioso, que se interessa em buscar, em conhecer, em estar informado. Mas o que nós estamos buscando? O que desperta a nossa atenção? O que consideramos prioridade em nossa busca de cada dia?

São Bento diz na Santa Regra que o monge deve ser alguém “que busca verdadeiramente a Deus”. Podemos dizer que o batizado, o cristão, deve ser alguém que busca verdadeiramente a Deus. Ao final da celebração do dia 1º de janeiro, eu os convidava a colocarmos em nossas “metas de ano novo” esta prioridade: buscar mais a Deus, sermos mais de Deus. A celebração de hoje nos convida a assumirmos com seriedade esta disposição, nos tornado “buscadores de Deus”. Para isso, precisamos nos deixar modelar pela Palavra de Deus e pela liturgia que celebramos, buscando encontrar a face de Deus nos humildes sinais de sua presença em nosso cotidiano, nas pessoas que nos cercam ou que cruzam o nosso caminho. É nessa busca que podemos encontrar o brilho da estrela, que alegrou o coração dos magos e que pode também guiar nossa vida para Cristo.

Que Maria, Stella Matutina, “estrela da manhã”, nos aponte o caminho, que é seu Filho, e interceda por nós em nossa busca.

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