Sagrada família – Mateus 2,13-15.19-23

D. Afonso VIEIRA, OSB

Meus queridos irmãos e irmãs, o Deus que se vestiu de menino frágil e se apresentou aos homens no presépio de Belém encontrou abrigo numa família humana, a família de José e de Maria, dois jovens esposos de Nazaré, numa aldeia situada nas colinas da Galileia. Neste domingo, no contexto de celebração do Natal do Senhor, a liturgia nos convida a olhar para essa Sagrada Família; e nos propõe que a vejamos como exemplo e modelo das nossas comunidades familiares.

No Evangelho Mateus oferece-nos uma “foto” a cores da família de Jesus. É, antes de mais nada, uma família que conta com Deus e que vive de Deus. Escuta as indicações de Deus, aceita percorrer os caminhos de Deus, confia incondicionalmente em Deus. É, também, uma família unida, solidária, fraterna, onde cada um pode contar com o apoio incondicional dos outros, onde ninguém é descartado e deixado para trás, onde cada um é querido, cuidado, protegido e amado. É assim que se constrói uma família capaz de superar todas as provas e crises que a vida trouxer.

Na primeira leitura, nós vemos que reconhecer que os pais são os instrumentos através dos quais Deus concede a vida deve conduzir os filhos à gratidão; e a gratidão não é apenas uma declaração de intenções, mas um sentimento que implica certas atitudes práticas. Principalmente “honrar os pais” que significa ampará-los na velhice e não os desprezar nem abandonar; assisti-los materialmente – sem inventar qualquer desculpa – quando já não podem trabalhar (Mc 7,10-11); não fazer nada que os desgoste; escutá-los, ter em conta as suas orientações e conselhos; ser indulgente para com as limitações que a idade ou a doença trazem… é natural que, por detrás destas indicações aos filhos, esteja também a preocupação com o manter bem vivos os valores tradicionais, esses valores que os mais antigos preservam cuidadosamente e que os mais jovens por vezes, com alguma ligeireza, negligenciam.

Hoje, o Evangelho nos apresenta a Sagrada Família no doloroso caminho do exílio, em busca de refúgio no Egito. José, Maria e Jesus experimentam a dramática condição dos refugiados, marcada pelo medo, pela incerteza e pelas dificuldades (Mt 2,13-15.19-23). (…) Jesus quis pertencer a uma família que experimentou o exílio, para que ninguém se sentisse excluído da proximidade amorosa de Deus. A fuga para o Egito por causa das ameaças de Herodes nos mostra que Deus está onde o homem está em perigo, onde o homem sofre, onde foge, onde experimenta a rejeição e o abandono; mas Deus também está onde o homem sonha, espera voltar à sua pátria em liberdade, planeja e escolhe pela vida e dignidade sua e de seus familiares. Hoje, nosso olhar sobre a Sagrada Família também é atraído pela simplicidade da vida que ela leva em Nazaré. É um exemplo que faz muito bem às nossas famílias, ajudando-as a se tornarem cada vez mais comunidades de amor e reconciliação, nas quais se experimenta a ternura, a ajuda mútua, o perdão recíproco. Recordemos as três palavras-chave para viver em paz e alegria na família: permissão, obrigado, desculpe. Quando em uma família não se é invasivo e se pede “permissão”, quando em uma família não se é egoísta e se aprende a dizer “obrigado, obrigado”, e quando em uma família alguém percebe que fez algo errado e sabe pedir “desculpa”, nessa família há paz e há alegria.

O estilo de vida do seguidor de Cristo deve, portanto, estar marcado por atitudes de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência. Deve privilegiar, na relação com os irmãos, o perdão, a compreensão, a indulgência… Aquele que está unido a Cristo, que vive “em Cristo”, deve ser capaz de, em todas as circunstâncias, amar sem medida, amar a fundo perdido, amar até ao dom total de si, como Cristo fez.

No final da narração do Evangelho, Mateus, depois de dizer que a família de Jesus foi estabelecer-se em Nazaré, deixa um comentário de difícil interpretação: (Isso aconteceu) “para se cumprir o que fora anunciado pelos Profetas: “há de chamar-Se Nazareno” (vers. 23b). Na verdade, não sabemos exatamente a que citação profética Mateus se refere. Pode ser Jz 13,5 (“esse menino será nazireu de Deus desde o seio de sua mãe) ou a Is 11,1 (“brotará um ramo do tronco de Jessé, um rebento – em hebraico: “neçer” – brotará das suas raízes”)? Embora nem a citação de Juízes nem a citação de Isaías tenham algo a ver com Nazaré, Mateus usou-as pela semelhança fonética; o seu objetivo era mostrar aos judeus que, ao instalar-se em Nazaré, Jesus estava a cumprir as Escrituras e os desígnios de Deus.

A Sagrada Família é, finalmente, uma família que vive de Deus e que cultiva uma forte ligação com Deus. Escuta a Palavra de Deus, vive atenta aos sinais de Deus, procura seguir à risca as indicações de Deus, vive de olhos postos em Deus. O exemplo da Família de Nazaré mostra-nos que uma família que vive ao ritmo de Deus é uma família unida por laços fortes, que nem as maiores tempestades da vida conseguirão quebrar. Amém!

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