HOMILIA VI DOMINGO DO TC/ A (Mt 5, 17-37)

D. Paulo DOMICIANO, OSB

Depois de proclamar as Bem-aventuranças e declarar que somos sal e luz do mundo, Jesus entra, propriamente, no “Sermão da Montanha”, nos ensinando, então, como sermos sal e luz.

Jesus não veio para abolir a Lei dada por Deus a Moisés, negando o valor das Escrituras vividas até então por Israel. Ao contrário, Ele vem para cumpri-la integralmente, interpretando e revelando a intenção original do Pai.

Diferente dos mestres da Lei, Jesus não apenas repete as Escrituras ou cria novas exigências; Ele a vive em sua integralidade, pois Ele é a Palavra viva do Pai, que se fez carne. Sua interpretação provoca um choque em seus ouvintes, habituados a considerar que bastaria cumprir rigorosamente os preceitos divinos para ser considerado justo.

De fato, isso já é alguma coisa… cada um de nós sabe o quanto custa buscar ser justo, ser correto no agir e no cumprir de nossos deveres e obrigações para com a sociedade e para com a religião. Mas hoje o Senhor nos põe em alerta: para entrar no Reino dos Céus não é suficiente ser um bom cumpridor de regras, ainda que sejam os mandamentos de Deus. Ele nos declara: “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus.” Jesus nos mostra que não basta cumprir as normas, as leis, para não pecar. O pecado nasce em nossa intenção em realizá-lo; muitas vezes não matamos, não roubamos, não traímos declaradamente, mas o fazemos em nossas intenções interiores ou através de nossa dissimulação, de gestos e palavras que camuflam nossas verdadeiras intenções, e nos enganamos a nós mesmos.

Através dessas antíteses entre “assim foi dito” e “mas eu vos digo”, Jesus nos revela o verdadeiro e profundo sentido dos mandamentos de Deus e ao mesmo tempo nos desmascara. Ele faz a nossa máscara de “devotos cumpridores da lei” se quebrar e nos coloca diante de nossa crua realidade: não somos justos. Somente Ele é justo, porque vem para cumprir integralmente toda a Lei, assumindo todas as suas consequências de viver segundo a vontade de Deus. Ele faz isso não para nos humilhar ou dar uma lição, mas para nos anunciar a Boa nova libertadora, para nos abrir este caminho de justiça, que somente Ele poderia abrir para nos conduzir ao Reino dos Céus. Jesus nos faz o dom de sua própria justiça através do mistério pascal nos introduzindo em sua justiça, derramando sobre nós o seu Espírito, que grava em nosso coração a nova Lei, inspirando-nos e capacitando-nos a viver e agir como Ele mesmo.

A Palavra de Jesus se apresenta para nós hoje como um remédio contra toda duplicidade de nosso coração, toda falsa intenção, toda camuflagem de bondade aparente: “Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno”. O maligno é o mentiroso, o pai da mentira (cf. Jo 8,44). Jesus, ao contrário, é o verdadeiro (cf Jo 14,6), Ele é o “Amém de Deus” (cf Ap 3,14), que nos abre o caminho da verdade de Deus e nossa própria verdade, modelando o nosso coração para sermos homens e mulheres inteiros, íntegros, segundo o Espírito; capazes de viver os mandamentos a partir do coração e não de modo exterior apenas.

É muito oportuno ouvirmos este Evangelho às portas da Quaresma. Por isso, gostaria de convidá-los a relê-lo calmamente e em oração, fazendo um exame de consciência profundo para identificar quais são aquelas duplicidades, aqueles comportamentos hipócritas, mascarados, que insistirmos em manter só para parecermos bonzinhos e honestos, mentindo para os outros e para nós mesmos. É uma bela oportunidade para entrarmos neste tempo propício de conversão, que é a Quaresma, com esta disposição de mudança concreta, com um desejo renovado de sermos mais autênticos em nosso seguimento de Jesus Cristo, como seus discípulos, sendo sal e luz do mundo.

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