5º Domingo Comum – Mt 5, 13-16
Dom Afonso VIEIRA, OSB
Irmãos e irmãs, hoje no Evangelho nós ouvimos “Vós sois a luz do mundo”. Ora, a luz dissipa a escuridão e permite ver. No contexto de Jesus, Ele é a luz que dissipou as trevas, mas elas ainda permanecem no mundo e nas pessoas. Nós, como cristãos, devemos dissipá-las, fazendo brilhar a luz de Jesus e anunciando o seu Evangelho. Trata-se de uma irradiação que pode derivar também das nossas palavras, mas que deve brotar sobretudo das nossas “boas obras” (v. 16). Um discípulo e uma comunidade cristã são luz no mundo quando orientam os outros para Deus, ajudando cada um a fazer experiência da sua bondade e misericórdia. O discípulo de Jesus é luz quando sabe viver a sua fé fora dos espaços restritos, quando contribui para eliminar preconceitos, calúnias e fazer entrar a luz da verdade em situações viciadas pela hipocrisia e pela mentira. Mas não é a minha luz, é a luz de Jesus. Nós somos instrumentos para que a luz de Jesus chegue a todos.
Mesmo que existam apenas alguns homens que toleram as fraquezas de seus semelhantes (e as suas próprias, por sinal!) com bom humor, bondade e indulgência, que não se preocupam apenas em se impor, perseguindo seus próprios objetivos e interesses, esse pequeno grupo de homens tem a capacidade de mudar o ambiente ao seu redor, ajudando a manter nosso mundo humano. Nosso mundo seria pobre, desumano e frio se não houvesse homens que demonstrassem esse calor e generosidade espontâneos. Sendo o sal da terra, nós temos confiança suficiente para acreditar na natureza contagiosa da bondade? Ou nos contentamos em temer o poder contagioso do mal? Uma pitada de sal basta para dar sabor a um prato inteiro.
Cada um de nós, mesmo que se sinta isolado, tem a sorte de poder mudar o clima ao seu redor! Jesus acredita que somos capazes e por isso Ele diz “vocês são o sal da terra, vocês são a luz do mundo!” A primeira leitura convida os habitantes de Jerusalém a serem uma luz de Deus que ilumina a noite do mundo. Mas como? Ser “luz de Deus” passa por partilhar o pão com os famintos, ficar do lado dos injustiçados, cuidar daqueles que ninguém cuida, ser testemunha da misericórdia e da bondade de Deus junto daqueles que sofrem.
No Evangelho, Jesus recorre a duas metáforas para definir os contornos da missão que vai confiar aos seus discípulos. Os que integram a comunidade, devem ser “sal da terra” e “luz do mundo”. Com as suas “boas obras”, os discípulos de Jesus devem “dar sabor” à vida e fazer desaparecer as sombras que trazem sofrimento à vida dos seus irmãos. O Evangelista Mateus situa este discurso de Jesus no cimo de um monte não identificado. O monte lembra-nos a montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que oferece ao novo Povo de Deus uma nova Lei; e essa Lei irá orientar a vida de todos os que se propõem fazer parte da comunidade. Esse grupo de gente pobre e pouco influente que aceita viver segundo o espírito das “bem-aventuranças” não se irá diluindo. Jesus acredita que, esse pequeno poderá “fazer a diferença”. O Senhor diz isso através de duas imagens simples, audazes e surpreendentes: “vós sois o sal da terra”, “vós sois a luz do mundo”.
A metáfora do sal é muito expressiva (vers. 13), pois, o sal tornou-se, para nós, um elemento tão normal e barato que não o valorizamos convenientemente. Mas, na antiguidade, era algo bem precioso, de tal forma que os soldados romanos chegavam a receber o seu soldo pago em sal (o “salário”). Servia para “dar sabor” aos alimentos, os transformando de alimentos insípidos em alimentos saborosos (cf. Jb 6,6). O sal também era usado para a conservação dos alimentos, para assegurar a sua incorruptibilidade. Nesse sentido, usava-se a imagem do sal para significar o valor durável de um contrato. É bem provável que, com a imagem do “sal” Ele queria dizer que os seus discípulos são chamados a trazer ao mundo essa “qualquer coisa mais” que o mundo não tem e que dá sabor à vida dos homens; pretendia dizer também que, da fidelidade dos discípulos ao programa enunciado por Jesus (as “bem-aventuranças”), dependia da perenidade da Aliança entre Deus e os; pretendia ainda dizer que os seus discípulos têm como missão aquecer o mundo com a verdade do Evangelho. Se, no entanto, os discípulos se recusarem a ser “sal” o mundo ficará privado dos dons de Deus e continuará a se conduzir por critérios de egoísmo, de injustiça, de violência, de perversidade, e estará cada vez mais distante da realidade que Jesus veio propor.
A metáfora da luz (14-16), por sua vez, era bem conhecida no judaísmo. Jesus explicita-a através de duas imagens. Onde se fala da “luz” de Deus que devia brilhar sobre Jerusalém e, a partir de lá, alumiar todos os povos. O Povo de Deus devia ser o reflexo da luz libertadora e salvadora do Senhor diante de todos os povos da terra (cf. Is 58,7-10). A segunda imagem repete e explicita a mensagem da primeira; mas sublinha especialmente uma coisa, esconder a luz de Deus priva o mundo de uma referência de que os homens precisam. É possível que haja ainda nestas duas imagens, uma referência ao profeta cuja missão consiste em ser, com a sua entrega e o seu testemunho, a “luz das nações”.
No Evangelho de João, quem é apresentado como “a luz” é Jesus. Ora, os discípulos participam da mesma missão que Jesus tinha. Os que vivem segundo o espírito das “bem-aventuranças” e aderem ao Reino de Deus são, como Jesus, uma luz que ilumina o mundo e aponta caminhos aos homens. De acordo com Mateus, a luz que eles recebem de Jesus deve manifestar-se, não apenas em belas palavras, mas também nas “boas obras” que praticam e que testemunham o amor, a bondade, a ternura, a misericórdia de Deus. Essas “boas obras” são, provavelmente, aquelas que Mateus apresenta na segunda parte das “bem-aventuranças” (Mt 5,7-11). A “misericórdia, a “pureza de coração”, a construção da paz, a luta pela justiça.
Dessa forma, o novo povo de Deus, será a “nova Jerusalém”, a “cidade santa”, a partir da qual a luz de Deus brilha sobre as nações. Essa luz elimina as sombras do mundo e faz irradiar sobre todos os povos a proposta salvadora de Deus. A “visibilidade” que Jesus pede aos discípulos não significa, que eles devam procurar lugares privilegiados, onde podem exibir-se diante do mundo e conquistar aplausos, benefícios e recompensas; significa, simplesmente, que eles devem desempenhar a sua missão profética sem interrupção, deixando a cada momento ao mundo e aos homens as interpelações e os desafios de Deus. De resto, a vida de Deus manifesta-se na fraqueza, na humildade, na simplicidade, na pequenez. Vivendo como “sal da terra” e “luz do mundo”, os discípulos de Jesus serão fermento de uma nova humanidade. Com as suas “boas obras”, anunciarão o mundo que há de vir, o mundo de Deus, esse mundo novo de vida e de felicidade sem fim que espera todos aqueles que acolhem a salvação que Deus oferece.