D. Agostinho FAGUNDES, OSB

Meus caros irmãos em Cristo,
a liturgia deste V Domingo da Quaresma nos convida à esperança, à confiança de que o Senhor é capaz de transformar em vida, em recomeço, em reencontro todas as nossas experiências de morte – sejam elas físicas, espirituais, existenciais.
Na primeira leitura deste dia o povo de Deus encontra-se em solo estrangeiro, exilados na Babilônia,
experimentando uma verdadeira desolação: fora da terra que havia sido dada por Deus, sem o Templo de
Jerusalém, lugar principal do culto e dos sacrifícios, e vivendo tudo isso como um sinal de que eles haviam rompido a Aliança de Amor com o Deus Vivo e, por isso, Ele os havia abandonado à própria sorte. Em meio a esse sofrimento, o profeta afirma que o próprio Deus os levantará da morte, infundindo neles a força de Seu Espírito para que possam voltar à vida.
Então o salmo retoma esta reflexão, afirmando que no Deus Vivo encontra-se toda a graça e redenção, e
que o povo de Israel aguarda ansiosamente a manifestação da salvação de Deus. Pois Ele está sempre próximo, e ouve o clamor e a prece de seus filhos, sem ficar continuamente nos acusando por causa de nossos pecados, fraquezas e fracassos. Somos pecadores, mas reafirmarmos nossa esperança em sua misericórdia: Ele virá nos perdoar e salvar.
Na segunda leitura, São Paulo nos afirma que embora estejamos marcados, por causa do pecado, pela
mortalidade, pela caducidade, o Espírito de Deus habita em nós, permitindo-nos viver orientados por Sua Força, movidos por Seu Amor, de tal modo que possamos viver conforme o chamado de Deus porque cremos que fomos justificados em Jesus Cristo. Na cruz do Cristo Jesus se manifestou a justiça de Deus. E tal como Deus o levantou da morte pelo poder do Espírito, assim também fará conosco. E essa experiência também se dá a cada dia, à medida que rompemos com o egoísmo e somos capazes, por dom de Deus, de gerarmos vida ao redor de nós à medida que nos colocamos a serviço de nossos irmãos.
Então chegamos ao Evangelho deste domingo que, ao narrar a ressurreição de Lázaro, torna-se imagem
bastante vívida de tudo o que ouvimos nas leituras anteriores e cantamos no Salmo Responsorial. Lázaro, amigo de Jesus, morre. E Jesus Cristo, no quarto dia, chega à casa de suas irmãs. O que Jesus Cristo demandava de todos aqueles que o seguiam e com quem se encontrava era a fé: crer em Jesus Cristo, aquele que foi enviado pelo Pai e a quem o Pai sempre escuta, é passar da morte para a vida. E a revivificação de Lázaro será o sinal de que Ele é verdadeiramente aquele que vence a morte. Ele já a vencera em outros momentos – lembremo-nos do filho da viúva de Naim e da filha de Jairo. Mas será a sua própria Ressurreição que estabelecerá sua vitória final.
O Cordeiro de Deus, o cordeiro pascal, tira o pecado mundo ao dar a sua vida por nós, por amor a nós, e ser Ressuscitado pelo poder de Deus. Muitas vezes, de dentro de nossas cavernas morais e existenciais, do mais profundo de nosso coração atribulado e sem esperança, cansado, mergulhado no próprio egoísmo e mediocridade, escutamos o Cristo Jesus nos chamando pelo nosso próprio nome e convidando-nos a “vir para fora”. É a Sua Palavra que nos tira da morte, da incredulidade, do fechamento em nós mesmos e em nosso próprio pecado. Lázaro é símbolo da nossa humanidade enferma, necessitada da força vital que nos vem do Cristo Jesus. É o seu amor por nós, seus discípulos, que nos tira de uma vida sem sentido e nos mostra que Deus quer nos dar a vida em plenitude. Importa atentar, ainda, neste relato evangélico, para as palavras de Marta: “Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias”. Basta recordar-nos de que, ao recitarmos o Credo, dizemos que o Senhor Jesus Cristo “ressuscitou ao terceiro dia”. O que o evangelista quer destacar apontando para o quarto dia é que antes de Jesus Cristo, toda a humanidade estava condenada à morte. Agora, Ele, que é a Ressurreição e a Vida, as transmite a todos aqueles que aderem a Ele pela fé. O quarto dia era símbolo da morte sem esperança. Agora, a nossa vida está no Cristo, o Filho do Deus Vivo, em quem cremos e esperamos.
Terminemos ouvindo as palavras de Santo Atanásio em sua Homilia sobre a ressurreição de Lázaro:
Eu sou a voz da vida que ressuscita os mortos. Eu sou o doce perfume que dissipa o mau cheiro.
Eu sou a voz da alegria que dissipa a tristeza e a dor […]. Eu sou o auxílio para os tristes. Os alegres me pertencem, pois eu sou a alegria do mundo inteiro. Alegrem-se todos os meus amigos, pois eu me alegrarei com eles! “Eu sou o pão da vida.”
Que o Deus Vivo continue nos sustentando em nosso caminho penitencial rumo à celebração pascal

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