HOMILIA DO III DOMINGO DA QUARESMA – A (Jo 4,5-42)

D. Paulo DOMICIANO, OSB

A cada ano, os dois primeiros domingos da Quaresma nos remetem aos episódios da tentação de Jesus no deserto e o da Transfiguração sobre o monte, como uma síntese de todo o caminho quaresmal, onde atravessamos o deserto da provação e da conversão para subir o monte, onde seremos iluminados pela visão da face de Deus.

A partir do 3º domingo, de acordo com cada ciclo de leituras, a liturgia nos convida a prosseguir o nosso itinerário quaresmal sob um enfoque particular, acentuando um aspecto próprio para cada ano. As leituras para o Ano A, que estamos vivendo, enfocam principalmente os efeitos da graça batismal em nossa vida, evocando a cada semana, consecutivamente, o mistério da água (3º Dom), da luz (4ºDom), da ressurreição e da vida (5º Dom). Por isso a liturgia deste período se orienta para a preparação dos catecúmenos que receberão o Batismo e, ao mesmo tempo, para a redescoberta e aprofundamento de nosso próprio Batismo, cujas promessas renovaremos na Vigília pascal.

Na liturgia de hoje temos o tema da água e da sede, evocando assim a água do Batismo, a água do Espírito, a água que brota do lado de Cristo, o verdadeiro rochedo, de onde brota a água viva.

Na 1ª leitura o povo no deserto reclama de sede e o Senhor lhes dá água que brota do rochedo. O rochedo representa a segurança, a firmeza, o apoio de Deus para seu povo. Dele brota a água, o elemento vital para todos os seres vivos. A importância deste texto está na releitura que S. Paulo dele faz na I Cor 10, 4, onde compara o rochedo do deserto a Cristo. É Ele o rochedo novo de onde brota a água que nos lava e sacia nossa sede.

Essa água, que brota de Cristo, nós a recebemos no Batismo e é sinal do Espírito, que foi derramado em nossos corações, como ouvimos na 2ª leitura. Cumpre-se assim o que Jesus anuncia à samaritana do Evangelho: “A água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4, 14).

Há em nosso interior uma fonte, a fonte do Espírito, que jorra incessantemente e, como um rio, desagua na vida eterna. Mas é preciso sempre cavar essa fonte para que não seja obstruída pelas coisas e preocupações do mundo, por nosso pecados e resistências, como pedras que sufocam uma nascente. Como um eco da voz do Pai, que ouvimos no último domingo, que nos ordenava a ouvir a voz do Filho amando, o salmo 94, que cantamos hoje, nos convida a “ouvir” a sua voz com docilidade – “Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!”. Esta atitude, oposta a do povo murmurador no deserto, nos permite redescobrir a fonte que nos habita e identificar quais as pedras que a estão cobrindo e impedindo que ela jorre e sacie a nossa sede, nos dando vida nova.

São Paulo nos diz que o encontro com essa fonte nos dá a paz: “Justificados pela fé, estamos em paz com Deus”. É dessa paz que todo o mundo está sedento e é urgente que a façamos brotar de nossos corações.

Como a samaritana do Evangelho, precisamos reconhecer que nossa busca interminável por uma água que sacie nossa sede de vida só encontra seu fim em Cristo, pois a sede do ser humano é muito profunda e não se sacia com qualquer fonte encontrada pelo caminho. Mas quando bebemos da água oferecida por Jesus, a água do Espírito, uma fonte começa a jorrar em nosso coração.

A samaritana, imediatamente vai anunciar esta “boa notícia” aos seus irmãos, provavelmente, também sedentos de paz, de alegria, de força. É este também um aspecto fundamental da vocação batismal: o testemunho. Esta fonte que jorra em nosso peito pela graça do batismo não pode ser contida, precisa se multiplicar e saciar a sede daqueles que ainda a desconhecem.

Participando da Eucaristia, o Senhor, o doador da água viva, quer revitalizar em nós a fonte do Espírito. Ele também se dirige a cada um de nós, como fez com a samaritana, pedindo: “Dá-me de beber”. Aquele que é a fonte de água viva tem sede de nós, de nossa fé. Se, ao longo da vida, permitimos que se depositassem tantas coisas que bloqueiam esta nossa fonte interior, hoje o Senhor quer nos ajudar a desenterrá-la para que volte a jorrar, nos dando vida abundante, paz, coragem e alegria.

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