HOMILIA 23º Domingo do Tempo Comum

Dom Afonso VIEIRA, OSB

As leituras deste domingo nos sugerem uma reflexão sobre a nossa responsabilidade diante daqueles que nos rodeiam, afirmando claramente, que ninguém pode ficar indiferente diante daquilo que ameaça a vida e a felicidade de um irmão e que todos somos responsáveis uns pelos outros. A primeira leitura nos fala do profeta como uma “sentinela”, alguém que Deus colocou para vigiar a cidade dos homens, o profeta apercebe-se daquilo que está tirando o foco dos planos de Deus e impedindo a felicidade dos homens. Como sentinela responsável, ele alerta a comunidade para os perigos que a ameaçam. Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Roma (e de todos os lugares e tempos) para colocar no centro da vida humana, o mandamento do amor. Trata-se de uma “dívida” que temos para com todos os nossos irmãos, e que nunca estará completamente saldada.

Tendo em vista as leituras, o Evangelho deixa clara a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Trata-se de um dever que resulta do mandamento do amor. O Senhor Jesus ensina que o caminho correto para atingir esse objetivo não passa pela humilhação ou pela condenação de quem falhou, mas pelo diálogo fraterno, leal, amigo, que revela ao irmão que a nossa intervenção resulta do amor. O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é conhecido como o “discurso eclesial” por apresentar uma catequese de Jesus sobre a experiência de caminhada em comunidade. A comunidade de Mateus é uma comunidade “normal”, é uma comunidade parecida com a nossa e com qualquer uma das que nós conhecemos. Nessa comunidade existem tensões entre os diversos grupos e problemas de convivência: há irmãos que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares; há irmãos que tomam atitudes prepotentes e que escandalizam os mais fracos; há irmãos que magoam e ofendem outros membros da comunidade; há irmãos que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros… Para responder isso, Mateus elaborou uma exortação que convida à simplicidade e humildade, ao acolhimento dos pequenos, ao perdão e ao amor. Ele desenha, assim, um “modelo” de comunidade para os cristãos de todos os tempos. A comunidade de Jesus tem de ser uma família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos mais fracos, que escuta os apelos e os conselhos do Pai e que vive no amor. O fragmento do “discurso eclesial” que hoje nos é proposto refere-se, especialmente, ao modo de proceder para com o irmão que errou e que provocou conflitos. Neste quadro, as decisões radicais e fundamentalistas raramente são cristãs. É preciso tratar o problema com bom senso, com maturidade, com equilíbrio, com tolerância e, acima de tudo, com amor. Assim Mateus propõe um caminho em várias etapas…

Em primeiro lugar, propõe um encontro com esse irmão, em privado, e que se fale com ele cara a cara sobre o problema (vers. 15). O caminho correto não passa por dizer mal “por trás”, por publicitar a falta, por criticar publicamente (ainda que não se invente nada). O caminho coreto passa pelo confronto pessoal, leal, honesto, sereno, compreensivo e tolerante com o irmão em causa. Se esse encontro não resultar, Mateus propõe uma segunda tentativa. Essa nova tentativa implica o recurso a outros irmãos (“toma contigo uma ou duas pessoas” – diz Mateus – vers. 16) que, com serenidade, sensibilidade e bom senso, sejam capazes de fazer o infrator perceber o sem sentido do seu comportamento. Se também essa tentativa falhar, resta o recurso à comunidade. A comunidade será então chamada para recordar-lhe as exigências do caminho cristão e a pedir-lhe uma decisão (vers. 16a). No caso de um irmão obstinado no seu comportamento errado, a comunidade terá que reconhecer, com dor, a situação em que esse irmão se colocou a si próprio; e terá de aceitar que esse comportamento o colocou à margem da comunidade. Trata-se de imagens tipicamente judaicas para falar de pessoas que estão instaladas em situações de erro, que se obstinam no seu mau proceder e que recusam todas as oportunidades de integrar a comunidade da salvação. Na realidade, a Igreja é uma realidade divina e humana, onde coexistem a santidade e o pecado. O que Mateus aqui sugere é que a Igreja tem de tomar posição quando algum dos seus membros, de forma consciente e obstinada estão frontalmente contra as propostas que Cristo veio trazer. Nesse caso, contudo, nem é a Igreja que exclui o irmão, ele é que, pelas suas opções, se coloca à margem da comunidade. A Igreja tem, no entanto, que constatar o fato e agir em consequência. Depois desta instrução sobre a correção fraterna, Mateus acrescenta três “ditos” de Jesus (Mt 18,18-20) que, originalmente, seriam independentes da temática precedente, mas que Mateus encaixou neste contexto.

O primeiro (vers. 18) refere-se ao poder, conferido à comunidade, de “ligar” e “desligar”, usando a expressão que designava o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido e para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus; significando que a comunidade tem o poder para interpretar as palavras de Jesus, para acolher aqueles que aceitam as suas propostas e para excluir aqueles que não estão dispostos a seguir o caminho que Jesus propôs. O segundo (vers. 19) sugere que as decisões graves para a vida da comunidade devem ser tomadas em clima de oração, pois reunidos em oração, o Pai os escutará. O terceiro (vers. 20) garante aos discípulos a presença de Jesus “no meio” da comunidade. Neste contexto, sugere que as tentativas de correção e de reconciliação entre irmãos, no seio da comunidade, terão o apoio e a assistência de Jesus.

O Evangelho de hoje sugere a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Convida-nos a respeitar o nosso irmão, mas a não pactuar com as atitudes erradas que ele possa assumir. Amar alguém é não ficar indiferente quando ele está fazendo mal a si próprio, amar significa, muitas vezes, corrigir, admoestar, questionar, discordar, interpelar… É preciso amar muito e respeitar muito o outro, para correr o risco de não concordar com ele, de lhe fazer observações que o vão magoar; no entanto, trata-se de uma exigência que resulta do mandamento do amor… A Igreja tem o direito e o dever de pronunciar palavras de denúncia e de condenação, diante de atos que afetam gravemente o bem comum… No entanto, deve distinguir claramente entre a pessoa e os seus atos errados. As ações erradas devem ser condenadas; os que cometeram essas ações devem ser vistos como irmãos, a quem se ama, a quem se acolhe e a quem se dá sempre outra oportunidade de acolher as propostas de Jesus e de integrar a comunidade que caminha rumo ao céu!

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