HOMILIA DA TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR (Mt 17,1-9)

Dom Paulo DOMICIANO, OSB

Segundo a tradição de Mateus, Jesus transfigurado se apresenta sobretudo como o novo Moisés, que encontra a Deus sobre o novo Sinai, no meio da nuvem, com o rosto luminoso, assistido por duas testemunhas do AT que personificam a Lei e os Profetas, que viram a glória de Deus no alto da montanha (cf. Ex 19,16-25; 24,12-18.33.18-34.28; 1 ​​Reis 19,8-18), mas agora contemplam a glória de Cristo, que é o perfeito cumprimento de toda Lei e de toda Profecia.

Marcos e Mateus nos dizem que Jesus “foi transfigurado” (metemorphóthe: Mc 9,2; Mt 17,2), enquanto Lucas escreve que “a aparência do seu rosto mudou” (Lc 9,29). O certo é que, no alto da montanha, Jesus não foi visto por Pedro, Tiago e João em sua condição comum de homem frágil e mortal, mas em outra forma: radiante de luz, brilhando como o Senhor cantado no Salmo 75 (“Resplendente e majestoso apareceis”: v. 5a) e no Salmo 103 (“De majestade e esplendor vos revestis e de luz vos envolveis como num manto”: v. 2). Para usar a linguagem paulina, aquele que estava “en morphê theoû“, “na forma de Deus”, e que havia assumido a “morphé doúlou“, “a forma de servo” (cf. Fl 2,6-7), agora assume a forma de Deus e, assim resplandece. Deste modo se cumpre a profecia de Isaías: “Então a glória do Senhor será revelada, e toda a humanidade a verá” (Is 40,5), e ocorre o que é testemunhado no Evangelho de João: “E o Verbo se fez carne, armou a sua tenda entre nós, e vimos a sua glória” (Jo 1,14). Mas, se recuarmos alguns versículos neste Evangelho que ouvimos, constataremos que o próprio Jesus profetiza sobre o evento da Transfiguração, quando, após o primeiro anúncio de sua Paixão-Morte-Ressurreição, diz aos seus discípulos: “Alguns daqueles que estão aqui não morrerão antes de verem o Filho do Homem vindo com seu Reino” (Mt 16,28). 

Jesus é o Reino de Deus em pessoa, como bem compreendeu Orígenes; Jesus, que anunciou a vinda do Reino de Deus, é agora revelado pelo Pai como o Reino que vem com poder, e o evento da Transfiguração aparece como uma antecipação disso. Seis dias depois dessas palavras, “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha”. Ele faz uma escolha, e dos doze leva consigo apenas três, dentre os primeiros chamados a segui-lo (cf. Mt 4,18-22). São os três discípulos mais próximos de Jesus, já escolhidos como testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 5,37-43), os mesmos que também serão testemunhas de sua desfiguração no Jardim do Getsêmani, na véspera de sua paixão (cf. Mt 26,36-46). São escolhidos não por algum mérito particular, mas, na insondável vontade de Deus, para que possam se tornar testemunhas de Jesus.

Mas aqui nos fazemos uma pergunta. Visto que Marcos e Mateus escrevem que Jesus “foi transfigurado diante deles” (Mc 9,2; Mt 17,2), e somente diante deles, perguntamo-nos: foi o corpo de Jesus que foi transfigurado, ou foram os discípulos, pela graça de uma revelação, que viram na frágil carne humana de Jesus a sua glória divina? Orígenes já havia feito essa pergunta e concluído que foram os discípulos que sofreram uma transfiguração da sua visão na fé, a ponto de verem na humanidade do Servo, na forma de escravo, a forma de Deus (cf.  Comentário sobre Mateus  XII, 37, 1-21; sobre Mt 17,2).

Mas todo aquele que se dispõe a seguir a Cristo, a subir o seu monte santo, é chamado a receber a graça de ser transfigurado com Ele, de ter um coração convertido e olhos iluminados para contemplar a sua Luz. Para isso, é a voz do Pai, do meio da nuvem luminosa, que nos guia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!” Assim, o grande preceito dirigido ao povo eleito – Shemá, Israel! (Dt 6,4) – agora ressoa como: “Escutai a Jesus!”

Eis a mensagem da Transfiguração: ouvir Jesus. Esta é nossa vocação como seus discípulos, mas, sobretudo, como monges: “Escuta, filho”. Educar nossos ouvidos para escutá-lo é uma exigência radical, pois sempre somos tentados a ouvir outras vozes, incluindo aquelas que se movem em nosso interior, murmurando sobre tudo e sobre todos. Estas vozes nos afastam de nosso ideal, nos afastam do Tabor de nossa conversão e da Luz de Cristo.  

Permanecer com esta única voz, a Palavra que veio habitar entre nós e em nós, talvez seja a grande ascese do monge. “Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus”. Permanecer só com Jesus e com Jesus só, ouvindo a sua Palavra na solidão. Eis aqui um programa de vida para um monge da Transfiguração.

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